domingo, 3 de maio de 2009

ELIMINAÇÃO DO PLURAL REDUNDANTE

Oi!!!

Hoje vamos ter outro texto só em Português porque ele é dirigido só a quem sabe falar Português.
Bom, como a maioria de vocês já devem ter visto, em Fevereiro eu fiz um post sobre o rotacismo e em Abril eu fiz um post diferenciando ‘erro’ de ‘inadequação’, já que o rotacismo, apesar de ser uma inadequação, geralmente é equivocadamente chamado de “erro” pela maioria das pessoas.
Como eu expliquei antes, na maioria das vezes não é má fé da pessoa chamar isso de “erro”. É só uma idéia equivocada do que seria um erro.
E hoje eu vou falar aqui sobre outra inadequação muito comum no Português falado no Brasil e que é bem mais comum do que o rotacismo: a eliminação do plural redundante.
Não precisam se assustar com o nome. Vamos ver com calma.
Em 1º lugar, o que é redundância? Pra simplificar, podemos dizer que redundância é quando você repete numa frase alguma coisa que você já disse antes nessa mesma frase.
Vamos ver uns exemplos:

“A luz matinal da manhã invadiu o meu quarto.”

“Ele adora a brisa marítima do Mar.”

“Ela apresenta um programa infantil pra crianças.”

Não tem nenhum erro nessas frases, mas tem redundâncias. Na 1ª frase, a expressão “da manhã” é desnecessária, pois já foi usada antes a palavra “matinal”, que significa a mesma coisa; na 2ª frase, a expressão “do Mar” também é desnecessária, pois já foi usada antes a palavra “marítima”, que significa a mesma coisa; e na 3ª frase, a expressão “pra crianças” também é desnecessária, pois já foi usada antes a palavra “infantil”, que significa a mesma coisa.
Agora já ficou fácil entender o que é ‘eliminar o plural redundante’, né? É ‘eliminar o plural que se repete desnecessariamente’.
Ao contrário do rotacismo, que é usado com mais frequência pelas pessoas das classes mais pobres da sociedade, a eliminação da redundância no plural se espalha mais pela sociedade toda, atingindo pessoas de quase todas as classes sociais.
Não é difícil encontrar brasileiros de uma classe social relativamente alta falando frases como “Eu ouvi umas coisa.”, “Assinei uns papel.” e “Vocês fala muito!”.
Mas vamos ver melhor como funciona esse fenômeno. Vejam como exemplo essa frase no singular:

“Meu amigo tentou falar comigo, mas não conseguiu.”

Passando pro plural, na forma adequada de falar, vai ficar assim:

“Meus amigos tentaram falar comigo, mas não conseguiram.”

Entretanto, é muito provável que você já tenha ouvido alguém falar alguma coisa mais ou menos assim:

“Meus amigo tentou falar comigo, mas não conseguiu.”

E isso também funcionaria como o plural da frase no singular que eu usei como exemplo. É ou não é? E você entenderia que é plural porque a frase começou com “Meus”. Então, qual foi o fenômeno que aconteceu nessa frase? Foi eliminado o plural redundante.
Pra fazer isso, o povo geralmente usa o seguinte método: botam a 1ª palavra da frase (ou uma das palavras que aparecem no início da frase) no plural e mantêm o resto todo (ou quase todo) da frase no singular. E é exatamente o que se vê na 2ª frase no plural que eu usei como exemplo, né?
Uma forma de falar popular e regional que é muito usada em Minas Gerais demonstra esse método com toda a clareza do Mundo: quando um mineiro, numa situação informal, faz uma exclamação no plural com a palavra ‘que’ no início da frase, geralmente ele taca o S nesse ‘que’.
Vejam esse pequeno discurso como exemplo:

“Que lindos olhos você tem! Que cabelos sedosos você tem! E que lindas roupas você usa!”

Numa situação informal, possivelmente muitos mineiros diriam:

“Ques lindo olho você tem! Ques cabelo sedoso você tem! E ques linda roupa você usa!”

E não tem nada de errado em falar isso, não! Como eu disse, é simplesmente uma forma regional de falar.
Outra coisa que a gente claramente percebe na forma popular de falar é a eliminação das formas verbais no plural (aí já é um pouco mais comum nas classes mais pobres da sociedade).
Como é o verbo DIZER no Presente do Indicativo conjugado de forma adequada?

Eu digo
Você diz
Ele diz
Nós dizemos
Vocês dizem
Eles dizem

Mas popularmente, o que é que a gente escuta?

Eu digo
Você diz
Ele diz
Nós diz
Vocês diz
Eles diz

Querem outro exemplo? Vamos ver outro verbo em outro tempo verbal: o verbo FALAR no Pretérito Perfeito do Indicativo conjugado de forma adequada:

Eu falei
Você falou
Ele falou
Nós falamos
Vocês falaram
Eles falaram

Mas popularmente, vira isso:

Eu falei
Você falou
Ele falou
Nós falou
Vocês falou
Eles falou

Por que acontece esse fenômeno? Porque é uma tendência não só do Português, mas sim de TODAS as línguas, que as pessoas busquem sempre uma forma mais simples de falar. E em todos os exemplos que eu dei o que aconteceu foi tão somente uma simplificação das frases: foi removido o excesso de palavras no plural sem que você deixasse de perceber que a frase tava no plural, a frase não se tornou incompreensível por causa disso e a frase passou a ser dita um pouco mais rápido e passou a ser escrita ocupando um pouco menos de espaço. Ou seja: tudo foi simplificado.
Bom, pelos motivos que eu já expliquei antes, as frases não tão erradas quando são formuladas assim. Mas elas tão inadequadas.
Se você fala assim popularmente, numa situação informal, quando você tá entre pessoas com quem você tem intimidade, desde que você se sinta melhor falando assim e desde que você consiga se expressar melhor assim, continue falando assim. Mas numa situação formal, que exige que você fale de um modo mais padronizado, aí o mais ‘aconselhável’ é que você fale da forma mais padronizada possível. Evidentemente, isso não quer dizer que você tenha que falar tudo com 100% de perfeição. Mas sempre cai bem pensar no que vai falar antes de falar, tomar cuidado com as coisas que fala e usar o bom-senso.

Bom, lá vai mais um agradinho pra quem não fala Português:





Naked men!

¡Hombres desnudos!

Uomini nudi!

2 comentários:

Anônimo disse...

Bom, já que estamos falando de erros de português, logo no início do seu texto você cometeu um, quando escreveu "Bom, como a maioria de vocês já devem ter visto...".

O correto é "a maioria de vocês já deve ter visto...", pois o verbo deve concordar com "a maioria", que, por ser um coletivo, pede o verbo no singular.

Atenciosamente,

Edson

Leo Carioca disse...

Obrigado pela observação, Edson. Mas eu posso provar que não cometi erro nenhum. Vamos lá:
A concordância verbal da Língua Portuguesa, em geral, exige que o verbo concorde com o sujeito, sendo conjugado por ele. Vamos ver a frase em questão:

A MAIORIA DE VOCÊS JÁ DEVEM TER VISTO.

O sujeito dessa frase é A MAIORIA DE VOCÊS. Analisando esse sujeito sintaticamente, vamos ver que o núcleo do sujeito é MAIORIA e as periferias do sujeito são A - DE VOCÊS.
Como já foi dito, a exigência da gramática (ao menos da gramática normativa) é que o verbo concorde com o sujeito. Entretanto, nenhuma regra gramatical especifica com qual parte do sujeito o verbo tem que concordar. Portanto, ele pode concordar tanto com o núcleo quanto com a periferia.
Na frase em questão, temos singular no núcleo do sujeito (MAIORIA) e plural na periferia do mesmo sujeito (VOCÊS). Assim sendo, o verbo pode ser usado tanto no singular quanto no plural, pois em ambos os casos está concordando com o sujeito.
Em A MAIORIA DE VOCÊS JÁ DEVEM TER VISTO está sendo feita a concordância com a periferia do sujeito, que é plural; e em A MAIORIA DE VOCÊS JÁ DEVE TER VISTO está sendo feita a concordância com o núcleo do sujeito, que é singular.
Portanto, as 2 formas estão certas.