quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

ROTACISMO

Oi!!!

O texto de hoje é só em Português, porque ele é dirigido especificamente aos falantes de Português.
Eu acho importante aproveitar o espaço aqui pra lutar contra todos os tipos possíveis de preconceito, e não só contra a homofobia. E é o que eu vou tentar fazer hoje.
Existe um fenômeno linguístico que é extremamente comum em Português, mas é extremamente mal visto pela maioria dos falantes da nossa língua. Ele se chama rotacismo.
Pra simplificar, podemos dizer que o rotacismo é a substituição do L pelo R, que costuma ser bastante comum quando o L vem depois de uma consoante.
Ele é mal visto porque geralmente é mais percebido na fala das pessoas mais pobres da sociedade. Em outras palavras, ele é visto como a forma do pobre falar. Por extensão, é visto pelas classes mais altas da sociedade como uma forma de falar rude, tosca e errada. Por exemplo, você já deve ter visto uma pessoa pobre falando alguma coisa mais ou menos assim:

“O Cráudio prantou uma fror no jardim e depois pegou a bicicreta dele e saiu pra comprar chicrete.”

E mais provavelmente ainda você já ouviu outra pessoa, de uma classe social mais alta, chegar e corrigir, dizendo alguma coisa mais ou menos assim:

“Você falou tudo errado! O certo é: ‘O Cláudio plantou uma flor no jardim e depois pegou a bicicleta dele e saiu pra comprar chiclete.’.”

Duvido que você nunca tenha visto uma situação assim pelo menos umas 2 ou 3 vezes.
Pois é. Só que essa pessoa que pensa que fala “certo” e que se apressou em corrigir a outra que fala “errado” também comete rotacismo, embora não saiba. Porque o rotacismo, como eu já disse, é muito presente na Língua Portuguesa. E há séculos!
A gente pode confirmar isso em alguns versos do maior clássico da Literatura Portuguesa, escrito pelo Luís Vaz de Camões e publicado pela 1ª vez em 1572: Os Lusíadas.
Vejam só algumas passagens desse livro:

“E não de agreste avena, ou frauta ruda.” (canto I, verso 5)

“Pruma no gorro, um pouco declinada.” (canto II, verso 98)

“Era este Ingrês potente, e militara” (canto VI, verso 47)

Vejam que ele escreveu “frauta” em vez de ‘flauta’, “pruma” em vez de ‘pluma’ e “ingrês” em vez de ‘inglês’.
E aí? Será que alguém vai se atrever a dizer que o maior escritor de Língua Portuguesa que já existiu não sabia escrever direito em Português? Ou que o maior clássico da nossa língua que já existiu não foi escrito direito? Acho que não, né?
Mas o que eu tô querendo demonstrar com isso é o quanto o rotacismo é antigo. E tem gente que, quando vê alguém falando “pranta” em vez de ‘planta’, chega e diz:

“Brasileiro hoje em dia não sabe falar!”

Como vocês vêem, não se trata nem de brasileiro nem de hoje em dia. Já existiam portugueses que falavam assim há 500 anos atrás (no mínimo). E outra coisa: não se trata de não saber falar, mas sim de seguir uma tendência da língua que a gente vê que é bastante comum, apesar de ter ficado um pouco mais restrita às classes mais baixas da sociedade.
E como eu disse antes, a pessoa que pensa que não comete rotacismo comete, sim. Sabem por quê? Porque tem várias palavras que o Português recebeu de outras línguas (principalmente do Latim, é claro) que no original eram escritas com L. Mas, quando passaram pro Português, tiveram o L substituído por um R, por causa da nossa tendência ao rotacismo.
A Língua Espanhola recebeu essas mesmas palavras. Mas como a tendência ao rotacismo em Espanhol é muuuuuito menos frequente do que em Português, os falantes dessa língua não transformaram o L em R, mas mantiveram o L original.
Vamos ver alguns exemplos:

A palavra BLANDUS em Português virou BRANDO, mas em Espanhol virou BLANDO.

A palavra FLACCUS em Português virou FRACO, mas em Espanhol virou FLACO.

A palavra FLUXUS em Português virou FROUXO, mas em Espanhol virou FLOJO.

A palavra OBLIGATIO em Português virou OBRIGAÇÃO, mas em Espanhol virou OBLIGACIÓN.

A palavra PLATTA em Português virou PRATA, mas em Espanhol virou PLATA.

Se um falante de Português que pensa que fala tudo “certo” falasse mesmo tudo “certo”, ele teria que fa-lar “blando”, “flaco”, “flouxo”, “obligação”, “plata”... Não é isso? Aí sim, não estaria cometendo rotacismo nenhum.
Então, cuidado antes de dizer que o fulano é burro porque fala “Rede Grobo” ou que a beltrana não sabe falar direito porque fala “brusa”. Eles tão cometendo rotacismo quando falam isso, sem dúvida. Mas lembre-se que VOCÊ TAMBÉM COMETE! Não enxergar isso é preconceito.
E falar assim não é não saber falar, é apenas seguir uma tendência popular da Língua Portuguesa muito antiga e ainda muito presente na nossa língua.
O rotacismo não é um erro, mas sim uma forma mais popular de falar.
É evidente que, se a pessoa tá numa ocasião formal, ela não deve falar “prantão” em vez de ‘plantão’, assim como, no mesmo peso e na mesma medida, ela não deve falar “eu tô” em vez de ‘eu estou’, que também é uma forma popular de falar.
Nas ocasiões que pedem formalidade, todos nós devemos nos esforçar pra falar de uma forma considerada mais culta; nas ocasiões informais (que são a maioria), cada um que fale da forma como conseguir se expressar melhor, né? Afinal, pela própria lógica, informalidade pede informalidade. E nesse último caso, todos nós devemos nos esforçar principalmente pra não manifestar esse preconceito linguístico.
Pensem nisso!
Bom, como eu costumo fazer quando mando o texto só em Português, lá vão algumas imagens bonitas pros visitantes do blog que não falam Português:





Some hot males for you!

¡Algunos machos calientes para tí!

Alcuni maschi boni per te!

10 comentários:

Anônimo disse...

Caro Amigo, permita que o felicite vivamente pelo seu EXCELENTE TEXTO e pela GRANDE lição que passou não só aos pseudo cultos aí do Brasil, como também aos muitos pseudo iluminados que proliferam aqui por Portugal...

Um Grande Abraço
Jorge - Liboa/Portugal

Anônimo disse...

lembro-me de alguns anos atrás na época da crise dos dentistas em portugal, quando uma professora brasileira participou de um programa de tv lá na terrinha, e voltou abismada com o preconceito dos portugueses contra os brasileiros, ela disse de uma mulher que telefonou raivosa reclamando do sotaque dos brasileiros, e do uso do gerúndio e de termos de origem indígena e africana, que segundo ela, maculavam a pureza da língua.
pelo que me lembro da reportagem, esta professora não conseguiu responder estes absurdos, pois além de não estar preparada para tal, ficou muito assustada com a raiva demonstrada pela teleespectadora portuguesa.

eu colocaria aqui as seguintes respostas:
gerúndio - novamente camões

sotaque brasileiro citaria a descrição do modo de falar português descrito na primeira gramática portuguesa, que descreve algo muito mais próximo do falar brasileiro, que do português

termos indígenas e africanos - citaria o extenso uso de termos franceses pelos portugueses

Leo Carioca disse...

Jorge Cunha→ Pra mim é um prazer falar sobre isso!
E pseudo-intelectuais existem em todas as partes. Infelizmente, né?
Mas espero que o texto aqui tenha ajudado algumas pessoas a pensarem melhor antes de manifestar um preconceito linguístico contra pessoas que falam de forma mais popular do que elas, e não que falam ´´errado``, ao contrário do que elas pensam.

Anônimo→ Isso se chama purismo. É outro tipo de preconceito: achar que a língua tem que ser uma coisa fixa e imaculada que não pode sofrer nenhum tipo de alteração.
Bom, é preciso lembrar que Portugal e Brasil nem sequer ficam no mesmo continente, né? Então, é impossível que o desenvolvimento do Português Brasileiro seja 100% igual ao desenvolvimento do Português Lusitano. É claro que nós vamos usar palavras e expressões que, aos olhos dos portugueses, vão parecer completamente estranhas. E vice-versa, com certeza.
A pessoa que telefonou pra esse programa fazendo esse tipo de comentário não parece levar nada disso em conta. Então, responder o quê pra ela?
As outras considerações que você fez também me parecem perfeitamente lógicas e pertinentes.

Pedro disse...

Leo, eu fiquei chocado com a clareza e a servidão de seu texto!!!!
Eu mesmo (e tenho certeza que nenhum brasileiro) nunca parei para pensar nessa questão.
Amei tudo aqui no se blog e vou virar leitor assíduo!!!

E só não concordei com o que foi dito: que o rotacismo não é errado, é apenas uma maneira popular de falar.
Certo, sejamos sinceros, todo mundo fala "seu português" errado de vez em quando e o rotacismo existe sim, pois eu ouço isso o tempo todo.

Mas será que o fato dele ser popular, mostra que não seja mais errado??
As palavras que você citou como exemplo, já fazem parte do português do Brasil há tempos e acho que por isso, não valem como ônus, mas errar até nomes próprios como também foi citado, realmente chega a ser irritante...

Talvez você deva me incluir entre os preconceituosos, mas eu acho que fica feio mudar o L pelo R, mesmo que a linguagem do brasil tenha absorvido alguns casos e os tornados oficiais e entre a população tenha surgido essa tendência...

Enquanto lia teu texto, imaginei na hora que seria mais belo se houvesse uma reeducação linguística (como está ocorrendo agora) do que a aceitação de certas tendências que descaracterizam o português (mesmo que ele seja brasileiro)

Abraços...
e tem até homem pelado!!!!

kappyqueens disse...

Gracias Leo por tu cariño y por el "Sello", inmerecido.
Besos.

Kaka disse...

Eita, menino cultura!!! rsrs

Muito legal o original das palavras... e verem como se transformaram!

Enfim, amigo, muito obrigado pela indicação!!! Fico muito feliz!
Este fim de semana vou postar, ok?

Beijo

Leo Carioca disse...

Pedro→ Obrigado!
Seja bem-vindo!
Bom, você não é preconceituoso. Você só tá com uma pequena idéia equivocada do que você chama de “erro”. Mas não é nada demais, não. Muita gente se equivoca com isso mesmo.
Vamos ver:
Quando o assunto é a gramática de uma língua, ‘erro’ é quando alguém fala uma coisa que não existe. Ou, explicando melhor, quando alguém fala uma coisa que não é registrada por nenhuma forma de falar. Por exemplo, alguém chega pra você e diz:

“Amanhã eu trabalhaste.”

Existe isso? Não.
Algum grupo de pessoas falam assim? Não.
Você vê essa forma de falar entre a classe alta, entre a classe média ou entre a classe baixa da sociedade? Não.
Alguém fala assim no modo formal ou no modo informal de falar? Não.
Você encontra essa concordância (“Eu trabalhaste”, e ainda por cima indicando futuro!) na forma erudita de falar ou na forma popular de falar? Não.
Então, é um erro. Essa frase tá errada.
Mas o rotacismo não pode ser considerado um erro porque ele existe entre vários grupos de pessoas (geralmente pessoas mais pobres, como a gente já viu), ele é visto e ouvido quase sempre na classe baixa da sociedade, ele é usado frequentemente no modo informal dessas pessoas falarem e existem até letras de músicas e poemas populares que foram escritos fazendo-se uso do rotacismo.
Então, não é um erro. Sem dúvida que é uma forma popular e muitas vezes inadequada de falar (‘inadequada’ é diferente de ‘errada’, certo?), mas não chega a ser um erro.
E dizer que você acha feio trocar o L pelo R não é preconceito nenhum da sua parte, não! Você tem todo o direito de achar que é feio falar assim, de não gostar quando alguém fala assim, de achar desagradável quando alguém fala assim, de achar que é inadequado alguém falar assim... Até aí, não é preconceito. Mas achar que uma pessoa é burra porque ela disse “A brusa dela tem uma fror desenhada.”, aí é preconceito, sim. É claro que eu não tô dizendo que você disse isso! Só tô deixando claro aquilo que é preconceito e aquilo que não é.
E concordo totalmente com o que você chama de “reeducação linguística”. Porque o que você tá dando a entender aí é que as pessoas que não tiveram acesso à forma culta de falar têm que passar a ter. Sem dúvida! É por aí mesmo. Mas a gente tem que ir com muito cuidado quando trata desse assunto pra não ofender ninguém e pra não ser preconceituoso com a outra pessoa só porque ela fala diferente da gente, né?
Nossa! Quase escrevi outro post!rs Mas é que a explicação é meio longa mesmo.
E sim: aqui aparece homem pelado com uma certa frequência. Espero que você goste!rs
Abraços!

Kappyqueens→ ¡No es verdad! Es todo merecido.
¡Besos!

Kaká→ É. As palavras aí ganharam um R no lugar do L, pois essa é a tendência do Português.
Tá bom. Vou esperar pra ver o seu post!rs
Beijo!

Anônimo disse...

Pelas imagens, este deve ser um site gay, mas deixo o comentário na mesma:

Rotacismo é ERRADO! Palavras como frauta (flauta), fror (flor), craro (claro) simplesmente NÃO EXISTEM EM NENHUM DICIONÁRIO DO PORTUGÊS (seja português de Portugal ou do Brasil) não é preconceito, é a realidade!
Sim, é preciso (re)uducação linguística! (tiro o (re), pois quem fala "craro" não deve ter andado na escola nunca!
Não me levem a mal, mas a sociedade está péssima, e as pessoas mais pobres é que pagam,é verdade, mas não vamos tapar os olhos com poeira, pensando que estamos a ser muito humanos e tolerantes, sem preconceitos, e em vez de tentarmos arranjar uma solução e mobilizar campanhas educacionais, afirmamos que um erro gramatical está certo! Nao está não! E não venham aqui misturar os rotacismos históricos, pois esses já lá vão! Compreendem-se por antigamente não haver uma norma de escrita, gramáticas, escolas, etc. Agora há tudo isso e muito mais! Só é pena que não chegue a todos!

Leo Carioca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leo Carioca disse...

Essas formas realmente não existem em nenhum dicionário que registre a forma padronizada de falar Português, pois elas não fazem parte do Português padrão. São formas do Português não-padrão.
Quanto à questão do ´´erro``, o rotacismo não é ´´erro``, mas sim inadequação.
Eu fiz um post explicando a diferença entre erro e inadequação em Abril. É esse aí:

http://centrogb.blogspot.com/2009/04/inadequacao-versus-erro.html

Ninguém aqui está dizendo que erro está certo. Mas é bom diferenciar erro de inadequação.